A acne pode se apresentar desde cravos e espinhas ocasionais até lesões inflamadas, nódulos dolorosos, manchas e cicatrizes. E não acontece apenas na adolescência: também pode surgir ou retornar na vida adulta.

Por isso, uma das primeiras coisas que procuro entender é qual acne estou tratando e por que ela está acontecendo naquele momento da vida do paciente.

Por que algumas pessoas têm acne mesmo cuidando bem da pele?

A acne é uma doença inflamatória do folículo piloso e das glândulas sebáceas. Predisposição genética, produção de oleosidade, alterações hormonais, cosméticos, medicamentos e características individuais da pele podem participar do quadro.

Mas, em alguns pacientes, vale também olhar além da pele.

Padrão alimentar, mudanças de peso, alterações metabólicas e outros aspectos da saúde podem contribuir para o contexto em que a acne aparece ou piora. Dietas com alta carga glicêmica, por exemplo, têm associação consistente com acne.

O consumo de leite também tem sido relacionado à acne em alguns casos, e nesta linha, o consumo de Whey Protein pode ser um fator de piora da acne.

Quando faz sentido investigar aspectos metabólicos e hormonais?

Na mulher adulta, a acne pode apresentar características diferentes da acne da adolescência, frequentemente com maior concentração de lesões em mandíbula e queixo.

Quando há outros sinais associados — como irregularidade menstrual, aumento de pelos, queda de cabelo de padrão androgenético, ganho de peso ou outras alterações clínicas — pode ser pertinente investigar hiperandrogenismo, síndrome dos ovários policísticos ou alterações metabólicas.

Isso não significa que toda mulher adulta com acne tenha uma alteração hormonal ou resistência à insulina.

A consulta serve justamente para identificar quem realmente se beneficia dessa investigação e evitar exames ou restrições alimentares desnecessários.

Alimentação faz parte do tratamento?

Pode fazer parte, mas não substitui o tratamento dermatológico.

Quando identifico um padrão alimentar que pode estar contribuindo para o quadro, a proposta não é criar uma dieta restritiva, e sim melhorar a qualidade global da alimentação, reduzir excessos de alimentos de alta carga glicêmica e observar possíveis associações individuais.

Também avalio se existem deficiências nutricionais ou situações clínicas que justifiquem alguma intervenção específica. Suplementos não são indicados de rotina apenas porque o paciente tem acne.

O tratamento precisa ser sempre com isotretinoína?

Não. A isotretinoína é uma opção importante para determinados quadros, especialmente nos casos mais graves, com risco de cicatrizes ou que não responderam adequadamente a outros tratamentos.

Dependendo do tipo e da intensidade das lesões, o tratamento pode incluir ajustes na rotina de cuidados com a pele, medicamentos tópicos, tratamentos orais, terapias hormonais em situações selecionadas ou procedimentos complementares.

Quando há indicação de isotretinoína, explico os cuidados, o acompanhamento e os exames necessários durante o tratamento.

Também considero importante avaliar o que permanece depois da acne. Manchas e cicatrizes são alterações diferentes e, por isso, exigem abordagens distintas.

Quanto antes conseguimos controlar um quadro inflamatório importante, menor tende a ser o risco de novas marcas e cicatrizes.

A consulta é o momento de compreender não apenas as lesões, mas o contexto em que elas estão acontecendo, para construir um tratamento adequado à pele e à realidade de cada paciente.